O custo dos alimentos e as escolhas dos consumidores

Hoje há aproximadamente um bilhão de pessoas no mundo que passam fome. Contudo, em apenas 50 anos estima-se que nossa população global em crescimento requererá 100% mais de alimentos do que se produz hoje. Infelizmente, não teremos 100% mais área agricultável de alta qualidade disponível para produzirmos o dobro de grãos ou duas vezes mais animais para produção de alimentos.

A FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação) relata que o aumento de área em produção agropecuária permitirá a produção de apenas 20% da quantidade de alimentos adicional que será demandada em 2050, e que 10% virá do aumento de intensidade na atividade agrícola. Coerentemente, a FAO conclui que 70% da demanda adicional por alimentos poderá ser produzida apenas com as tecnologias agropecuárias novas ou já existentes.

As consequências da não utilização dessas tecnologias e inovações baseadas em ciência serão desastrosas. Os produtores de alimentos em países industrializados e em desenvolvimento precisam igualmente de tecnologia para garantir o fornecimento de grãos e proteínas de origem animal seguros, nutritivos e a custos razoáveis, de maneira sustentável, a fim de satisfazer o veloz aumento de demanda. Por esse motivo, e vários outros, todos compartilhamos a responsabilidade de assegurar que as novas tecnologias agropecuárias – assim como aquelas que foram comprovadas como seguras e efetivas durante décadas – continuem disponíveis.

 

Resumo

  • A ONU (Organização das Nações Unidas) prevê que a população mundial atingirá mais de 9 bilhões de pessoas até a metade do século e clamou pelo aumento em 100% na produção mundial de alimentos até 2050. De acordo com a ONU, essa demanda pelo dobro dos alimentos deve ser produzida virtualmente pela mesma área que hoje já é utilizada para produção agropecuária.
  • A FAO afirma que 70% desse fornecimento adicional de alimentos deverá vir do uso de tecnologias que melhorem a eficiência da produção.
  • Impulsionada pela eficiência na produção de alimentos, a agricultura pode conquistar uma “vitória máxima” para consumidores em todo o mundo – custos razoáveis, disponibilidade, segurança dos alimentos, sustentabilidade e fornecimento abundante de grãos para biocombustíveis. Três conceitos-chave - colaboração, escolha e tecnologia – emergem como o caminho para esse sucesso.
  • O crescimento populacional será maior que nossa habilidade de atender à demanda de alimentos?

    Alguns argumentam que isso já ocorreu. Em dezembro de 2008, aproximadamente 963 milhões de pessoas em todo o mundo não conseguiam se alimentar de maneira adequada. Aproximadamente 42% das pessoas que sofrem de fome crônica vivem em duas das regiões mais populosas das nações em desenvolvimento: Índia e China. Devido à má nutrição, uma em cada quatro crianças nas nações de “Segundo e Terceiro Mundo” (M2 e M3) estão abaixo do peso para sua idade.

    Essa é uma situação inaceitável nos dias atuais e exigirá uma nova abordagem na produção de alimentos para evitar um cenário ainda pior nas próximas décadas. Isso ocorre porque espera-se que a demanda global por alimentos aumente em 100% até 2050. Consequentemente, a FAO projeta que a produção global de carnes e proteínas derivadas do leite vai praticamente dobrar até 2050. Esse aumento na demanda global será impulsionado por um constante incremento no crescimento da população atual: de 6,7 bilhões de pessoas para mais de 9 bilhões no meio do século 21.

    Esse acréscimo populacional será caracterizado pelo aumento na riqueza, particularmente nas nações do chamado “Segundo Mundo”, o que criará a maior ampliação no consumo global de carnes e produtos lácteos da história. Muito desse aumento ocorre concomitantemente a uma melhoria nos padrões de vida das nações em desenvolvimento, em que mais pessoas podem custear a troca de grãos de baixo custo em sua dieta diária por fontes de proteína de maior valor. A China é um grande exemplo dessa tendência. Comparada às outras nações do grupo M2, como a Índia, a China teve mais progressos na redução da fome em sua população em expansão.

    Em 1985, o consumo de carne na China era de aproximadamente 20 Kg por habitante por ano. Em 2000, essa quantidade havia aumentado para 41 Kg per capita anualmente, valor que, estima-se, mais do que duplicará novamente até 2030.


    Terra: o recurso esgotado

    Coincidindo com o aumento na demanda por proteína animal, há a realidade das crescentes restrições dos recursos naturais esgotáveis, sendo a terra um fator essencial limitante. Com base nas projeções da FAO, 13% a mais de terra nos países em desenvolvimento serão convertidos para uso agropecuário nos próximos 30 anos. No âmbito global, isso representa um aumento líquido de terras agricultáveis disponíveis de apenas 1% dos 39% de área de terra globalmente utilizados em 2008, para um total de 40%. Essa expansão de terras contribuirá com apenas 20% do aumento futuro na produção de alimentos.

    De acordo com as Nações Unidas, 70% do aumento na produção de alimentos precisará vir da intensificação do uso de novas ou atuais tecnologias melhoradoras de rendimento. Aproximadamente 10% virá da intensificação da agricultura (obter mais colheitas por ano de cada hectare). No que tange ao aumento da produção, há boas notícias. Durante a última metade do século 20, a produtividade agropecuária em muitas nações do grupo M1 se expandiu a taxas fenomenais. Por exemplo, a produção média de milho nos Estados Unidos aumentou de 2,45 toneladas por hectare para 9,61 toneladas por hectare (Fig. 1).

    Além disso, uma comparação da produção rural dos Estados Unidos de 1948 a 1994 mostra substancial aumento de produtividade para todas as atividades pecuárias e de produção de grãos, incluindo um aumento de 88% na produção de carnes e de 411% na produção de ovos e frango. Combinadas, essas melhorias resultaram em um aumento de 145% no Fator Total de Produtividade (FTP )* para a indústria agropecuária dos EUA (Fig. 2). Isso nos deve dar motivos suficientes para acreditar que podemos atender à crescente demanda mundial por alimentos.

    Por quê? Porque, segundo o Serviço de Pesquisa Econômica do USDA (ERS), o desenvolvimento de novas tecnologias agropecuárias – incluindo avanços em genética, nutrição, controle de doenças e pestes e manejo de rebanhos – foi importante fator nessas melhorias de produtividade do século 20.14,15 Refinar essas tecnologias, e descobrir novas, será crítico para nosso sucesso em expandir a melhoria da produtividade neste século.

    Quanto à otimização do uso da terra para a agricultura nas próximas décadas, porém, as notícias não são tão encorajadoras. As razões para isso são múltiplas e complexas, mas duas delas são de importância primordial. Primeiramente, há a crescente necessidade de se balancear o uso de terras com fins agropecuários com o dever de minimizar o impacto da agricultura no cenário global – particularmente no que tange às emissões de gases de efeito estufa, degradação do solo e proteção de recursos escassos como a água. Poucos argumentariam contra a premente necessidade de utilizar-se apenas aquelas tecnologias agropecuárias que tenham impacto neutro ou positivo em nosso meio ambiente. Fazer o contrário é o mesmo que sacrificar nossa sobrevivência de longo prazo em favor de ganhos em curto prazo.

    A segunda razão envolve a conflitante pressão para realocar o uso de terras hoje utilizadas para a agricultura voltada à produção de alimentos para a agricultura geradora de grãos para produção de biocombustíveis. Responder a esses desafios adicionais com sucesso – proteger o meio ambiente e balancear as necessidades mundiais por energia e água – requererá uma abordagem complexa e multifacetada. Por ora, independentemente de como respondamos a esses desafios, ambos inevitavelmente afetarão o custo dos alimentos nas nações dos grupos M1, M2 e M3 da mesma maneira.

    Um consenso crescente: o desafio de alimentar o mundo.

    O que alguns especialistas têm a dizer:

    “A ciência e a tecnologia devem estimular a produção agrícola nos próximos 30 anos a um ritmo mais rápido do que a Revolução Verde o fez durante as três últimas décadas.”
    Dr. Jacques Diouf, diretor-geral, FAO

    “Políticas visando proteger os pobres do aumento do preço dos alimentos são urgentes e precisam ser desenhadas de maneira a conduzir o estímulo a uma produtividade agropecuária ainda maior no longo prazo.”
    Dan Leipziger, vice-presidente do Banco Mundial para a redução da pobreza e gerenciamento econômico

    “Tudo bem com as hortas de quintal. O mesmo vale para os orgânicos... Mas as soluções para a crise global dos alimentos virão dos grandes negócios, lavouras geneticamente modificadas e fazendas de grande escala.”
    Jason Clay, WWF (World Wildlife Fund)

    A perspectiva dos consumidores

    Com respeito ao fornecimento mundial de alimentos, o que pensa o cidadão médio? Ele ou ela se preocupa diariamente com a segurança dos alimentos, tecnologias e métodos agropecuários? Especialistas continuam a debater a resposta para essa pergunta.

    Por outro lado, o medo das contaminações alimentares – como aquelas envolvendo leite da China, pimenta do México, carne de algum abatedouro norte-americano e produtos derivados de amendoim da Geórgia – criaram compreensíveis preocupações nos consumidores sobre a segurança do suprimento mundial de alimentos.

    De outra forma, uma pesquisa realizada em 2008 pelo Conselho Internacional de Informações sobre Alimentos (IFC - International Food Information Council) revelou que quando os consumidores são questionados sobre preocupações específicas quanto aos alimentos, metade considera que “doença e contaminação” estão no topo da lista. Não obstante, apenas 7% relataram preocupar-se com os métodos de produção agropecuários, e 1% citou a biotecnologia como uma preocupação primordial (Figura 3).

    A pesquisa também demonstra que a maioria das pessoas não está excessivamente preocupada com a segurança dos alimentos, tampouco com as modernas tecnologias de produção agropecuárias. Pesquisas norte-americanas e internacionais, envolvendo um total de 45 gruposfoco, conduzidas em 2001, 2004 e 2008 – incluindo uma pesquisa quantitativa de 741 americanos feita em 2008 –, revelaram que a maioria dos consumidores (aproximadamente 70% em 2008) supõe que a carne e o frango que compram são seguros.

    A pesquisa também demonstrou que os consumidores preocupam-se pouco com a origem da carne adquirida. E apenas 17% dos consumidores pesquisados em 2008 expressaram um forte interesse em conhecer as modernas técnicas de produção de animais produtores de alimentos, ao passo que aproximadamente 60% tinha pouco ou nenhum interesse, preferindo, em vez disso, confiar na cadeia de produção de alimentos para assegurar que os alimentos que consomem é seguro.

    Em quem os consumidores acreditam mais para garantir a segurança dos alimentos baseada em ciência? Talvez, não surpreendentemente, seja nos produtores de alimentos – aqueles que utilizam as modernas tecnologias para ajudá-los a produzir alimentos de maneira segura e eficiente. É interessante observar que os consumidores confiam nos produtores para ajudar a manter a segurança dos alimentos em grau muito maior do que acreditam grupos de interesse especial (Fig. 4).

    Proteger a confiança e o crédito que os consumidores colocam na cadeia de produção dos alimentos é vital. Apesar de a confiança dos consumidores permanecer relativamente forte, as pesquisas mostram que ela está reduzindo-se levemente.17 Recalls de alimentos de alto padrão ajudaram a abalar essa confiança. Mas será que o surgimento de alimentos geneticamente modificados também tem sua parcela de culpa? Provavelmente não.

    As pesquisas revelam que, a menos que seja sugerido, consumidores não colocam os produtos geneticamente modificados como uma preocupação primordial sobre os alimentos. Além do mais, na União Europeia – uma região do mundo que tipicamente é líder em produção orgânica – poucos consumidores evitam de fato os alimentos geneticamente modificados quando fazem compras.

    Na realidade, independentemente do que os consumidores declarem sobre os alimentos geneticamente modificados em pesquisas de opinião, a grande maioria prontamente consome os poucos alimentos geneticamente modificados disponíveis sem hesitação aparente. É digno de nota, porém, que a demanda global por produtos orgânicos continue a crescer. Mundialmente, as vendas de produtos orgânicos dobraram de 2000 a 2006, sendo que a União Europeia emergiu como um dos três principais mercados de importação para esses produtos.

    Grãos para alimentos ou grãos para combustíveis: podemos ter ambos?

    O USDA projeta que, aproximadamente, um terço da produção de milho norte-americana em 2009 será convertida em etanol. Ainda assim, esta nova tecnologia criada para revolucionar a produção de energia, também produziu debates a nível mundial, sobre os prós e contras da utilização de terras agrícolas para a produção de combustíveis em detrimento à produção de alimentos.

    Considere: quando a produção estadunidense de etanol começou a aumentar em 2005, o milho custava menos de dois dólares norte-americanos por bushel (o equivalente a 25,4 Kg). Em um prazo de dois anos, o valor havia dobrado para 4 dólares e, um ano mais tarde, teve um pico de quase 8 dólares por bushel, resultando em significativa pressão na indústria alimentar.

    Podemos produzir alimentos suficientes para alimentar o mundo enquanto ajudamos os Estados Unidos e o mundo a atingir um maior nível de independência energética? Se a história pode orientar-nos, a resposta é sim, mas apenas à medida que continuemos a investir na tecnologia necessária para fazer a produção de etanol, produção de grãos e de alimentos ainda mais eficiente.

    Os consumidores desejam alimentos de alta qualidade e com custos razoáveis

    Se a maioria dos consumidores confia que os alimentos que consome são seguros e aceita alimentos geneticamente modificados com poucas inquietações, então com o que eles se preocupam? Quando perguntados abertamente sobre o que mais desejam em seus alimentos, consumidores consistentemente dizem que desejam produtos de alta qualidade e com custos razoáveis. Como exemplo, um recente levantamento nos Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha, Argentina e China revelou que o sabor, qualidade e preço estavam entre as principais considerações feitas quando da escolha dos alimentos.

    Custos razoáveis continuam a ser o fator mais relevante, à medida que a economia global permanece em um estado de elevada volatilidade. De acordo com uma pesquisa de outubro de 2008 realizada pelo Centro de Integridade dos Alimentos (Center for Food Integrity), 60% dos respondentes estão mais preocupados com os preços dos alimentos do que estavam apenas um ano antes da pesquisa - “o mais alto nível de preocupação... desde a Segunda Guerra Mundial” de acordo com o CEO do Centro, Charlie Arnot.

    Os consumidores desejam ter escolhas

    Naturalmente, a possibilidade de ter recursos para adquirir alimentos importa menos para alguns consumidores, particularmente para aqueles em países ricos (países do grupo M1), onde a despesa com os alimentos consome apenas 10% da renda média. Isso inclui consumidores que preferem alimentos produzidos de maneira orgânica, em outras palavras, sem pouco uso (ou nenhum) de modernas tecnologias e ferramentas agropecuárias.

    A produção orgânica de alimentos, porém, tipicamente demanda mais recursos e produz menos alimentos - o que, no momento atual, tornase uma solução questionável para atender à crescente demanda global por alimentos. À medida que nos preparamos para adentrar a segunda década do século, a maioria dos alimentos orgânicos permanece um luxo de alto custo ao qual três quartos da população mundial não têm acesso, particularmente em países em desenvolvimento, onde os custos com a alimentação consomem mais de 50% da renda média.

    Obviamente, consumidores que desejam adquirir produtos orgânicos – o que auxilia a indústria de alimentos a satisfazer a demanda e capturar mais valor – merecem essa escolha. Do mesmo modo, consumidores que desejam ter abundância de alimentos produzidos eficientemente, com alta qualidade e custos razoáveis, também merecem essa oportunidade. Todas as preferências dos consumidores podem e devem ser protegidas. Sobretudo os subnutridos das nações em desenvolvimento, que estão melhorando suas dietas pelo aumento de consumo de proteínas de origem animal, merecem alimentos a custos acessíveis, que possam ser produzidos com tecnologias agropecuárias cuidadosamente monitoradas, que aumentem a eficiência de produção.

    O alto preço dos alimentos agravará a crise global dos alimentos

    A questão sobre como os alimentos são produzidos tornou-se ainda mais relevante em 2008, quando o mundo todo assistiu a uma pressão na aceleração da produção de alimentos como nunca antes vista. De acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), os preços mundiais das commodities alimentares cresceram mais de 75% do início de 2006 até julho de 2008.23 É claro que qualquer aumento nos preços dos grãos inevitavelmente provoca aumento nos custos das carnes, ovos e produtos lácteos, já que os grãos são utilizados na alimentação animal.

    Ainda que esses aumentos sejam apenas dolorosos nos países industrializados (M1), nas nações pobres o mais modesto incremento no preço dos gêneros alimentares pode significar a diferença entre a subsistência e a fome. Josette Sheeran, diretora do Programa Mundial de Alimentos, relata que de 2002 a 2007 os custos de aquisição de alimentos básicos para seu programa aumentaram em 50% - e então aumentaram 50% a mais apenas um ano mais tarde. Como consequência desse aumento de preços nunca antes visto, Sheeran adverte que “o alto preço dos alimentos não está apenas causando uma crise humanitária, mas também colocando em risco o desenvolvimento potencial de milhões de pessoas”.

    O desafio de auxiliar esses milhões de pessoas exige que perguntemos a nós mesmos: podemos nos dar ao luxo de não utilizar essas tecnologias disponíveis para produzir alimentos tão eficientemente quanto for possível?

    Por que a tecnologia é uma ferramenta tão importante para atender à demanda global por alimentos e para proporcionar escolhas aos consumidores?

    Há uma ampla variedade de respostas para essa questão e listamos aqui três das mais importantes:

    1. A tecnologia permite aos produtores de alimentos fornecer mais grãos e fontes de proteína de alta qualidade, usando menos recursos.

    Ironicamente, aqueles que acreditam que práticas agropecuárias “naturais” (por exemplo, as realizadas antes de 1950) eram superiores às utilizadas atualmente não poderiam estar mais enganados. Por exemplo, os produtores de gado atualmente usam uma combinação de modernas práticas alimentares e aditivos alimentares melhoradores de performance.

    Essas modernas tecnologias permitem aos pecuaristas produzir carne utilizando dois terços de terra a menos do que utilizariam para produzir a mesma quantidade de carne em um sistema de produção “todo natural” baseado apenas na alimentação a pasto. Além disso, podemos atualmente produzir pelo menos 58% a mais de leite com 64% menos vacas do que os produtores de leite tinham condições de produzir em 1944.

    Os pesquisadores também descobriram que o uso nacional de um aditivo alimentar aprovado para suínos pelo FDA (Food and Drug Administration) pode permitir aos Estados Unidos manter o mesmo nível de produção de suínos utilizando 11 milhões de cachaços a menos. Isso também reduziria a demanda de terra utilizada na produção de grãos para alimentação dos suínos em mais 809.400 mil hectares.

    Similarmente, para cada milhão de vacas manejadas com outra tecnologia amplamente utilizada, o mundo economiza 2,25 milhões de toneladas de alimentos que demandariam 218.530 hectares de terra para serem produzidos. Esse aumento de eficiência economiza energia suficiente para abastecer 15 mil residências e pode reduzir substancialmente o preço do leite. A tecnologia também teve um papel importante na indústria do frango, que testemunhou um aumento de quatro a seis vezes no peso do abate de frango de corte desde 1957. Os pesquisadores atribuem esse aumento à cuidadosa seleção genética e melhoria na nutrição.

    2. A tecnologia pode auxiliar na manutenção de preços adequados dos alimentos ao mesmo tempo que assegura a máxima opção de escolhas aos consumidores – especialmente nas nações em desenvolvimento.

    Os alimentos orgânicos são uma opção adequada para aqueles que podem dispor de recursos suficientes para pagar um preço maior por eles. De acordo com os pesquisadores do USDA, o aumento de preços destes produtos pode ser em média de 100% ou mais para os vegetais, 200% a mais para frango e aproximadamente 300% a mais para ovos. Em uma escala global, porém, a maioria dos consumidores não pode arcar com esses custos aumentados e demanda, em vez disso, escolhas alimentares mais baratas.

    É digno de nota que nem todos os métodos de produção orgânica são menos eficientes e fornecem alimentos que, invariavelmente, custem mais. De acordo com um relatório da FAO, em alguns países, sistemas orgânicos bem estruturados podem fornecer produção e lucros maiores do que os sistemas tradicionais. Em Madagascar, por exemplo, os fazendeiros aumentaram a produtividade do arroz em quatro vezes por intermédio do uso melhorado de práticas de manejo orgânico. Na Bolívia, Índia e Quênia, os fazendeiros demonstraram que a produção pode dobrar ou triplicar em relação às práticas tradicionais.

    Todavia, o relatório também reconhece a necessidade de mais pesquisas para resolver os problemas técnicos enfrentados pelos produtores orgânicos, e sugere que a agricultura orgânica possa se tornar uma alternativa realista à agricultura tradicional nos próximos 30 anos, porém apenas localmente. Ainda assim, dada a magnitude da crise de alimentos com a qual o mundo se confrontará nas próximas décadas, os esforços para maximizar as escolhas e concretizar altas eficiências produtivas (e menores custos) para todos os alimentos – incluindo os produtos orgânicos – merecem o apoio de todos os representantes institucionais na cadeia global dos alimentos.

    3. A tecnologia pode ajudar a minimizar os impactos ambientais globais do aumento da produção de alimentos.

    O uso das modernas técnicas de produção e tecnologias não apenas auxilia na produção de mais proteínas de alto valor a partir de menos terras em produção, mas também tem um impacto líquido mais positivo no ambiente. Para exemplificar, o que os produtores hoje chamam de técnicas de produção “convencionais” (isto é, modernas) pode na realidade reduzir as emissões de gases de efeito estufa por quilograma de carne produzida (aproximadamente meio quilo) em 38%, comparado a um sistema de produção “todo natural” (Figura 7).

    Além do mais, a tecnologia pode ajudar a reduzir a produção de efluentes de origem animal que ameaçam as fontes de água em nações em desenvolvimento cujos padrões e tecnologias modernas de controle de poluição não estão atualmente em uso. Exemplo objetivo: o uso de um aditivo alimentar aprovado pelo FDA para suínos pode reduzir a produção de dejetos em 8%. Sua utilização na alimentação de todos os cachaços abatidos nos Estados Unidos em 2002 teria reduzido a produção anual de dejetos suínos em mais de 13 bilhões de litros – ou o suficiente para encher 5.600 piscinas de tamanho olímpico.

    Lições do Centro Europeu de Excelência Competitiva

    Em 2003, um grupo de pesquisadores denominado Centro de Excelência Competitiva foi formado para avaliar uma série de desafios. Um deles era analisar a indústria da carne europeia e estratégias de desenvolvimento para melhorar sua posição competitiva dentro da Europa e no mercado global. Pesquisas e painéis de discussão realizados por especialistas em agropecuária altamente respeitados, veterinários e produtores de alimentos de toda a Europa foram conduzidos pelo Centro. Três percepções emergiram:

    1. A existência de um órgão regulador, de credibilidade, que demonstre autoridade. O modelo para isso é o U.S. Food and Drug Administration (FDA), um órgão regulador que, apesar de algumas críticas, permanece uma autoridade altamente respeitada pelos consumidores nos Estados Unidos e no resto do mundo. Uma autoridade centralizada como o FDA ajuda a manter a confiança dos consumidores – algo que os europeus reconhecem e de que necessitaram quando lidaram com contaminações alimentares e problemas de sanidade animal.

    Finalmente, eles criaram órgãos centralizados para a União Europeia, como o FVO - Food and Veterinary Office (Escritório Veterinário e de Alimentos) e a EFSA - European Food Safety Authority (Autoridade Europeia de Segurança dos Alimentos).

    2. Permitir a continuidade do uso de tecnologias aprovadas e de modernas práticas agropecuárias. Por exemplo, fazendeiros do Reino Unido aprenderam na década de 90 que reescrever leis para apaziguar os interesses políticos de minorias engajadas é uma receita para o desastre econômico. Uma década após ceder às pressões para banir (ou não aprovar) os hormônios de crescimento, produtos biotecnológicos, OGMs (organismos geneticamente modificados) e certas práticas produtivas, o Reino Unido transformou-se de um líder global competitivo em um produtor doméstico de alto custo, baixa produtividade que hoje depende das importações de frango e carne bovina para atender às demandas dos consumidores.

    3. Produtores de alimentos devem evitar “a diferenciação pelo negativo”. Rotular alimentos com alegações negativas como SEM aditivos, SEM isso, SEM aquilo, etc., resulta numa competição cara entre produtores de alimentos para ganhar nos atributos negativos “SEM”, além de confundir os consumidores que não entendem, desejam ou preferem esses tipos de alimentos. Além disso, essa prática pode criar medos infundados nos consumidores de que os produtos sem tais alegações sejam menos seguros, quando, na realidade, eles podem até mesmo ser mais seguros para o consumo. De qualquer maneira, é o consumidor que deve tomar a decisão final sobre quais produtos adquirir.

    Conclusões

    1. A indústria global dos alimentos demanda tecnologia.

    Sem avanços na tecnologia agropecuária, a humanidade provavelmente não teria progredido no século 20 sem grandes crises de fome ou guerras (que teriam um efeito devastador) motivadas pelos alimentos. Será que estaremos aptos a dizer o mesmo ao final deste século, dado que uma crise alimentar já se iniciou?

    Acredito que a resposta é sim, porque concordo com a FAO que 70% desses alimentos precisam vir do uso de tecnologias e métodos novos ou já existentes. E essas tecnologias e métodos não devem ter efeitos negativos sobre o meio ambiente, bem-estar animal ou segurança dos alimentos.

    2. Os consumidores merecem a mais ampla variedade possível de escolhas alimentares seguras e a custos razoáveis.

    Em geral, os consumidores acreditam nos produtores de alimentos para a manutenção do fornecimento de alimentos seguros e estão mais preocupados com contaminações alimentares do que com a tecnologia utilizada na fazenda. Em vez disso, uma das principais preocupações das pessoas é com a possibilidade de ter recursos para adquirir os alimentos. Por esse motivo, os consumidores de todas as classes sociais e geografias - desde aqueles que podem pagar por alimentos orgânicos até os que lutam para manter uma dieta alimentar suficiente para a sobrevivência – devem ter a possibilidade de escolher dentre uma abundância de alimentos seguros, nutritivos e, mais importante, com custos adequados a suas possibilidades de consumo.

    3. O sistema de produção de alimentos pode atenuar o desafio dos custos dos alimentos e possibilitar uma “vitória máxima”.

    Defrontado com uma crise global de alimentos, o mundo estará em risco no meio deste século. Será que nós já podemos reconhecer os sinais? Nossa população consumiu mais grãos do que se produziu durante sete dos últimos oito anos. A boa notícia: uma “vitória máxima” ainda é possível. Com o que ela se parecerá? Cinco principais conquistas marcarão seu sucesso:

    1. Aumentar o fornecimento de alimentos pelo uso de novas e já existentes tecnologias e ótimas práticas produtivas.

    2. Aumentar o fornecimento de alimentos instituindo-se amplamente maior grau de cooperação em toda a cadeia global dos alimentos.

    3. Garantir a segurança dos alimentos com uma combinação de tecnologia, sistemas e padrões de alta qualidade, aliados ao melhor nível de colaboração global.

    4. Incrementar a sustentabilidade por intermédio de um sistema produtivo altamente eficiente que simultaneamente proteja o meio ambiente com o uso sensível e eficiente dos recursos naturais.

    5. Produzir mais biocombustíveis para reduzir a dependência dos combustíveis fósseis enquanto não é gerado nenhum efeito negativo na disponibilidade mundial de alimentos. Em resumo, três conceitos

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