Novos conceitos na nutrição de bezerros durante a fase de aleitamento

Nos últimos anos, grandes mudanças têm sido observadas nas fazendas leiteiras no país e em todo o mundo. O número de animais em lactação aumentou, algumas fazendas passaram a utilizar dieta total, acompanhando e monitorando a qualidade do leite, etc. Mesmo as mais simples tiveram de se preocupar com a qualidade do leite, em função do sistema de remuneração que considera a qualidade do produto e, no mínimo, introduziram o resfriamento do leite em tanques isotérmicos.

A criação de bezerros, entretanto, continua sem receber grande atenção de criadores e técnicos e a apresentar baixo ganho de peso e altas taxas de mortalidade (14,9% até os 90 dias de idade) e morbidade, resultando na necessidade de os produtores investirem continuamente na reposição dos rebanhos, com implicações financeiras danosas e exposição a riscos sanitários inevitáveis, nem sempre com a contrapartida de agregar valor genético ao plantel.

 

Nutrição de bezerros recém-nascidos:

Os bezerros recém-nascidos são altamente suscetíveis a patógenos bacterianos e virais. A imaturidade do sistema imune contribui para essa alta suscetibilidade, já que ele é incapaz de produzir quantidades adequadas de anticorpos para enfrentar os desafios do ambiente. A saúde está no centro de complexas interações entre ambiente, agentes causadores de doenças e nutrição. Práticas de manejo inadequadas, que colocam os bezerros sob desafios do ambiente (como estresse pelo frio ou calor, ambientes contaminados), manejo inadequado do colostro e subnutrição predispõem os bezerros a doenças.

As deficiências de energia e proteína são a maior causa de imunodeficiência em todo o mundo e resultam em alteração na composição corporal e redução do ganho de peso em várias espécies. O plano nutricional no primeiro mês de vida afeta o eixo hormonal (somatotrófico). Baixas taxas de ganho de peso reduzem a taxa de crescimento e estão associadas à redução nas concentrações de IGF-1, insulina e glicose e no aumento nas concentrações de ácidos graxos não esterificados. O eixo somatotrófico influencia o desenvolvimento e a funcionalidade do sistema imune e alterações nesse eixo podem atrasar a “maturação” desse sistema, adiando a competência imunológica.

Estima-se que, para atender o sistema imune, o animal apresente aumento de exigência nutricional de 20 a 40% da mantença. Segundo Woodward (1998), na ausência de quantidades adequadas de energia e proteína a imunidade celular, a produção de citocinas, o sistema complemento, a função fagocitária e as concentrações de anticorpos são diminuídos.

A ocorrência de doenças no primeiro mês de vida reduz as taxas de ganho de peso e tem sido relacionada com o aumento do risco de doenças na vida adulta. Na espécie humana, a subnutrição resulta em altas taxas de doenças em crianças e tuberculose fatal, a despeito da vacinação.

Durante o aleitamento, a recomendação tradicional é o fornecimento da dieta líquida de modo restrito, ou seja, 8% a 10% do peso vivo. Os criadores, na verdade, adotam o fornecimento de 4 litros/dia, sem nenhum ajuste para as mudanças de peso durante toda a fase de aleitamento. Talvez isso se deva, além da facilidade de oferecer um volume fixo, à crença de que o aumento da ingestão de leite acarreta elevação na incidência de diarreia, redução da ingestão de alimentos sólidos, atraso no desenvolvimento do rúmen e a consequente perda de peso após o desaleitamento, além é claro, do fornecimento de maior volume de leite levar a aumento nos custos de criação.

Segundo Drackely (2008), 4 litros de leite/dia fornecem nutrientes apenas para mantença e ganho de 200 a 300 g/dia em condições termoneutras (15 a 25°C). A exigência de energia metabolizável (EM) para mantença sob condições termoneutras é de aproximadamente 1,75 Mcal/dia em um animal com 45 kg de PV. O leite integral contém aproximadamente 5,37 Mcal/kg de sólidos, o que significa que o bezerro requer em torno de 325 g de sólidos do leite, ou 2,6 kg de leite (2,5 litros) somente para mantença. Com o uso de sucedâneos, a quantidade de EM/unidade de sólidos está entre 4,6 - 4,7 Mcal/kg, uma vez que os sucedâneos apresentam menores conteúdos de energia que o leite. Consequentemente, um animal com 45 kg de PV requer em torno de 380 gramas de sucedâneo (3,0 litros) para atender a suas exigências nutricionais de mantença (Tabela 1).

Após 14 dias de idade, os bezerros já são capazes de ingerir alimentos sólidos, que começam a contribuir para as exigências nutricionais, mas é só após o primeiro mês de vida que eles são capazes de ingerir quantidades suficientes de concentrados que irão contribuir com apreciável quantidade de energia metabólica (Van Amburgh, 2003).

Estimativas baseadas em experimentos com animais adultos indicam que, sob estresse térmico, as exigências de mantença aumentam de 20 a 30% (Drackley, 2008). Em temperaturas altas, os bezerros gastam energia com a sudorese, mudanças na frequência respiratória etc., e no frio gastam energia com tremor e mecanismos para elevar a temperatura corporal. Em todo o Brasil, assim como em várias partes do mundo, seguramente durante grande parte do ano os bezerros estão em ambiente fora da faixa de termoneutralidade, o que os leva a maior gasto de energia para manter a homeostase e, consequentemente, à redução no ganho de peso.

Essas constatações levaram a comunidade científica a questionar os procedimentos tradicionais de oferecimento de leite, aliadas às observações de que a restrição de dieta líquida resulta em considerável redução da eficiência de conversão alimentar em bezerros lactantes quando comparado com práticas de alimentação em outras espécies domésticas (Figura 1), ao fato de o consumo de 4 litros de leite/dia ser muito menor que o de animais criados junto a suas mães, que é de 16% a 24% do peso vivo, e de que os bezerros alimentados à vontade apresentam menor ocorrência de doenças e 2,4 vezes maior velocidade de ganho de peso em relação aos sistemas convencionais, nas primeiras duas semanas de vida, e 14 vezes mais rápido nas duas semanas subsequentes.

Dessa forma, é plausível admitir que os bezerros de raças leiteiras que recebem 4 litros de leite ao dia estão submetidos a um programa de alimentação, principalmente até 30 dias de vida, que não permite altas taxas de ganho de peso e ainda os deixa extremamente vulneráveis quando a temperatura está acima ou abaixo da zona termoneutra e/ou quando precisa responder às agressões de patógenos. Essa vulnerabilidade talvez seja responsável pelas baixas taxas de ganho de peso, baixa eficiência alimentar e altas taxas de mortalidade e morbidade frequentemente observadas na criação de bezerras.

A nutrição na fase inicial da vida dos bezerros pode trazer efeitos em longo prazo, na vida do animal, como a melhoria do desenvolvimento e do funcionamento do sistema imunológico, o aumento precoce do desenvolvimento mamário, a alteração do funcionamento e o desenvolvimento endócrino, a maior deposição de tecidos magros e a maior produção futura de leite.

Apesar de poucos resultados experimentais, tem sido observada relação positiva entre maiores fornecimentos de leite durante a fase de aleitamento e a produção desses animais na vida adulta (Tabela 2).

A ingestão de concentrado é fator importante para o desenvolvimento do rúmen, e acreditava-se que o aumento do fornecimento de dieta líquida possa reduzir o consumo de concentrado pelos bezerros. Animais saudáveis, no entanto, possuem bom apetite, e em fase de crescimento ingerem quantidades suficientes da dieta sólida que permite o desenvolvimento ruminal.

Khan et al. (2007) demonstraram que os bezerros que receberam 25% do peso corporal em leite/dia até 30 dias de idade tiveram maior consumo de alimentos e melhor desenvolvimento dos pré-estômagos que bezerros que receberam o volume de 10% do peso corporal ao dia, conforme a Tabela 3.

Uma das restrições ao fornecimento de maiores volumes de leite é de que pudesse causar diarréia. Bezerros criados com suas mães ingerem, no entanto, até 30% do peso corporal em leite sem aumentar a incidência de diarreias. O fornecimento de maiores volumes de leite ou sucedâneos não causa diarreia - sua ocorrência está relacionada à baixa qualidade sanitária do leite, à baixa qualidade nutricional do sucedâneo, à presença de microorganismos no ambiente dos bezerros e à ingestão de fezes junto aos alimentos.

Fornecer maior volume de leite para bezerros é um conceito novo, e têm sido sugeridas duas estratégias: fornecer 6 litros de 0 a 60 dias de idade, ou 6 litros de 0 a 30 e 4 litros de 30 a 60. Esta última alternativa visa ao aumento do consumo de concentrado com o bezerro ainda em aleitamento, mostrando a importância da nutrição de bezerros.

Apesar dos poucos resultados de pesquisa, com a adoção dessas recomendações os benefícios dessa utilização são a redução da morbidade e mortalidade de bezerros, a redução da idade ao primeiro parto, melhora na saúde dos bezerros e aumento da produção futura de leite. Ainda não é possível fazer avaliações financeiras sobre a adoção desse novo conceito; no entanto, uma série de trabalhos de pesquisa está em andamento em todo o mundo, e dentro de algum tempo será possível também avaliar os custos e benefícios da utilização dessa nova metodologia.

  • Sandra Gesteira Coelho

    Sandra Gesteira Coelho

    É médica veterinária, professora associada, mestre em Reprodução e doutora em Nutrição pela Escola de Veterinária da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Acompanhe
Clique e compartilhe